E choveu.
Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada. Clarice Lispector
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Você
E choveu.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Em tempos de eleições no Brasil...

Fica frio, amigo, não foi o brasileiro o inventor da corrupção.
Baseado no mais profundo ensinamento da minha religião,
a corrupção começou no Princípio dos Princípios, justamente no Jardim do Éden.
Quando os dois proto-Safados, corrompidos pela Serpente, desrespeitaram a

Lei do Senhor e comeram o Fruto da Ciência do Bem e do Mal,
o desrespeito espantoso ficou conhecido como A Queda. Mas não passou assim pelo Todo (como era conhecido o Todo-Poderoso), que condenou os três culpados por uso indevido de bem público e formação de quadrilha.
Logo o Anjo Gabriel, executor das ordens do Supremo, expulsou Adão e Eva do Paraíso, obrigando-os a viver na periferia, a leste do Éden. Mas a Serpente, misteriosamente, nunca foi punida.
Millôr Fernandes.
In Millôr Fernandes: http://www2.uol.com.br/millor/aberto/biblia/008.htm
sexta-feira, 18 de junho de 2010
O CLUBE DOS SUICIDAS
A senhora - o que foi que tomou, mesmo? Comprimidos. Não sabe que comprimidos? Gardenal. Tomou Gardenal. Muitos? Cuidado, não pise no fio do microfone. Dez comprimidos. E o que foi que sentiu? Uma tontura gostosa! Vejam só, uma tontura gostosa! Não é notável? Uma tontura gostosa. E foi por causa de quem? Olha o fio. Do marido. O marido bebia. Batia também? Batia. Voltava bêbado e batia. Quebrava toda a louça. Agora prometeu se regenerar. E ela não vai mais tomar Gardenal. Palmas. Olha o fio. Fica ali à esquerda. Ali, junto com as outras. Depois recebe o brinde. Aproveito o intervalo para anunciar que a moça loira da semana passada - lembram, aquela que tomou ri-do-rato? Morreu. Morreu ontem. A família veio aqui me avisar. Foi uma dura lição, infelizmente ela não poderá aproveitar. OUtros o farão. E a senhora? Ah, não foi a senhora, foi a menina. Que idade tem ela? Dez. Tomou querosene? Por que a senhora bateu nela? A Senhora não bate mais, ouviu? E tu não toma mais querosene, menina. A propósito, que tal o gosto? Ruim. Não tomou com guaraná? Ontem esteve aqui uma que tomou com guaraná. Diz que melhorou o gosto. Não sei, nunca provei. De qualquer modo, bem-vinda ao nosso Clube. Fica ali, junto com as outras. Cuidado com o fio. Olha um homem! Homem é raro aqui. O que foi que houve?
A mulher lhe deixou? Miserável. Ah, não foi a mulher. Perdeu o emprego. Também não é isso. Fala mais alto! Está desenganado. É câncer? Não sabe o que é. Quem foi que desenganou? Os doutores às vezes se enganam. Fica ali à esquerda e aguarde o brinde. E essa moça? Foi Flit? Tu pensas que é barata, minha filha? Vai ali para a esquerda. Olha o fio, olha o fio. E esta senhora, tão velhinha - já me disseram que a senhora quis se enforcar. É verdade? Com o fio do ferro elétrico, quem diria! E dá? Dá? Mostra para nós como é que foi. Pode usar o fio do microfone.
SCLIAR, Moacyr. Os Melhores Contos - Seleção Regina Zilberman - São Paulo: Global, 1984.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Borboleta
Lá vem a moça bonita caminhando na praça.
Lá vem o menino, inocente olhar de anjo.
Lá vem o raio de sol.
Todos tem um só destino, tuas asas borboleta, tua doce melodia pousada em palavras.
Voa pro sucesso borboleta.
Que tuas fábulas delicadas e teus doces feitiços receitados em prosa e verso encantem ao mundo.
sábado, 5 de junho de 2010
Joaninha!
com olhos de raios X,
olhos indiscretos de quem quer descobrir o mundo.
Mas seria inútil barrar tua entrada
já que em minha vida entrastes sem usar portas,
janelas,
ou catracas.
Fostes absorvida.
E ella morreu.
Que vc morra a cada vez que, como lagarta, precise metamorfosear-se.
Que vc morra a cada vez que, como as marés, precise ir banhar outras praias.
Que vc morra a cada vez que, como a lua, precise mostrar suas múltiplas faces.
Que vc morra a cada vez que, seu espírito precise se libertar e voltar brilhante, de aúrea nova a teu corpo lânguido e ressecado de sêde de uma vida nova.
Porque nem sempre morrer é perder-se pra sempre.
